O Santo Violeiro das Terras do Amparo

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O Santo Violeiro das Terras do Amparo

Imagem de São Gonçalo de Palmares. 2016. Acervo Pessoal

Por Manoel Andrade

“Concedeis a licença, Santo do meu coração, Que viemo dá principe, Esta nossa devoção”. Foi assim que inúmeros devotos de São Gonçalo, ao longo desses 150 anos de nossa história, iniciaram seu rito religioso, diante de um altar carinhosamente improvisado e dedicado, exclusivamente, para homenagear o Santo e pagar promessas de vivos ou de mortos. Talvez poucos dos nossos contemporâneos riachãoenses tenham tido o privilégio de ver ou ouvir essa nossa importante manifestação religiosa e cultural, devido a sua especificidade, longevidade e dificuldade de manutenção, tão comum, infelizmente, nas manifestações culturais do Brasil.

Meu primeiro contato com os cantadores de São Gonçalo ocorreu na praça José Costa Fontes, na década de 90, numa espécie de Encontro Cultural de Riachão do Dantas. Gravei na memória aquele símbolo patrimonial e durante minhas vivências no município, sempre busquei conhecer melhor essa nossa identidade, que merece atenção, reconhecimento e valorização.

Neste 9 de maio de 2020, data em que comemoramos os 150 anos de emancipação política de Riachão do Dantas, escolhi este importante símbolo cultural para através destas linhas, exaltar a história desta cidade, fundada por João Martins Fontes e dedicada à Nossa Senhora do Amparo. Fortemente marcada pela presença dos religiosos carmelistas, do vaqueiro e dos quilombolas. Adiante, compartilho com os meus conterrâneos, um pouco da história da devoção a este Santo, o Beato Gonçalo do Amarante, nas terras de Riachão do Dantas.

A devoção e expressão cultural é filha de Palmares, povoação riachãoense importante para a construção da identidade local, propagação do cristianismo e colonização do centro-sul sergipano. Cenário marcado pela Ordem do Carmo, que compraram as terras da Fazenda Bananeiras, em 1648, a Baltazar de Arruda e Gaspar Marciel, edificando nela um pequeno Convento e uma Capela dedicada à Nossa Senhora do Carmo. Possivelmente, estes teriam sido sesmeiros de Antônio Gonçalves de Santomé, aliado de Cristóvão de Barros, que recebeu uma sesmaria em 1596 como recompensa pela sua atuação na conquista de Sergipe, fundando o Povoado Santo Antônio nos idos de 1604. A Ordem Carmelita administrou estas terras até 1916, quando o Provincial Frei Manuel Baraneira Serra vendeu a mesma a um grupo de fazendeiros locais (Justiniano Monteiro da Silva, Severino Monteiro da Silva, Olímpio José de Santana, Teodomiro Firmo da Silva, Sátiro José de Santana e Canuto Chaves Santana).

Foram estes Carmelitas que socorreram o Povoado Santo Antônio (em Lagarto/SE), em meados do século XVII, flagelado por uma epidemia avassaladora, levando a população sobrevivente para um lugar denominado Colina do Lagarto, situado nas proximidades do atual Bairro Hortas. Coube a estes religiosos tratar dos doentes, pois, certamente, muitos deles conheciam práticas medicinais, evidência muito comum na história do Brasil. A própria retirada da população sobrevivente do local atingido é uma exemplificação disto. Couberam a eles também o amparo espiritual, invocando a proteção de Nossa Senhora da Piedade para o enfrentamento da enfermidade, que paulatinamente foi vencida. Dado a isto, construíram uma capela dedicada à Santa, padroeira dos lagartenses, que foi transformada em Freguesia de Nossa Senhora da Piedade do Lagarto, em 11 de dezembro de 1679, a quem posteriormente veio pertencer a capela dos Carmelitas e a capela edificada pelo fundador de Riachão do Dantas.

Os Carmelistas foram exímios fazendeiros na Colônia e no Império, criadores de gado, muares e cabras. Para tocar seus empreendimentos, eles contaram com a mão de obra não remunerada de negros fugitivos da região, em troca de proteção, apadrinhando assim o Quilombo de Forras. A sede do Convento ficava localizada numa região estratégica, próximo da Vila de Nossa Senhora da Piedade do Lagarto e da Fazenda de Dona Samba, ponto de correspondência oficial na Colônia, instituído pelo Governador da Bahia em 1777.

Conta-se que a povoação de Palmares acreditava que São Gonçalo teria lhe visitado, deixando seu rastro impresso numa pedra, nas proximidades do lugar, onde os Carmelitas encontraram sua imagem e resolveram guardá-la na capela local. Diziam também que esse Santo era fujão e sempre retornava ao seu lugar de aparecimento, forçando os religiosos a levarem-no para Roma, de onde trouxeram a imagem de madeira existente na comunidade.

Considerando o período de atuação dos Carmelitas no município e a crença popular sobre a imagem de São Gonçalo, esta deve possuir, no mínimo, mais de um século. E a devoção ao Santo está intimamente ligada a chegada desta imagem em Palmares, certamente trazida pelos Carmelitas, responsáveis por encontrarem a mesma, resolver o problema de suas fugas e abriga-la na Capela de Nossa Senhora do Carmo.

São Gonçalo de Amarante é uma devoção lusitana, trazida para o Brasil pelos colonizadores. Ela foi bem acolhida pelos brasileiros e posteriormente foi proibida pelas autoridades, desaparecendo em muitos lugares. Mas resistiu em comunidades rurais como a de Palmares, em Riachão do Dantas. Aqui ela foi enriquecida com traços da civilização vaqueira, tão marcada pela devoção, pelos aboios e toadas de gado. Por isso, na Dança de São Gonçalo, os dançadores apresentam passos simples, lentos, cuidadosos e atento ao sagrado, buscando sempre se manter de frente para a imagem do Santo Violeiro. Essa expressão religiosa e cultural foi imortalizada no Largo da Gente Sergipana, na representação do exemplo de Mussuca, de Laranjeiras/SE, que ganhou maior projeção nacional e tem características específicas da zona do açúcar e da experiência africana.

Frei Gonçalo do Amarante é oficialmente considerado beato pela Igreja Católica e apesar da sua popularidade de Santo Milagroso, seu processo de canonização nunca foi concluído. Ele nasceu no século XIII, em Portugal, foi sacerdote por um tempo e teve concessão de seus superiores para peregrinar por Roma e aprofundar sua fé. Todavia, muitos anos depois, ao retornar para seu posto paroquial, foi considerado um impostor, pelo seu sucessor e sobrinho sacerdote. Desamparado, tornou-se eremita e posteriormente mais uma vez sacerdote, recuperando seu hábito. A partir de então, dedicou-se a sua missão em Amarante, onde faleceu. Ele é também considerado um Santo Violeiro, “farrista” e responsável por salvar doze mulheres da prostituição.

A fama do Santo Casamenteiro das Velhas cresceu, atravessou o oceano, conquistou o Brasil, Sergipe e Palmares, incorporando-se ao folclore local. Apesar de ser considerada quase extinta, a Dança de São Gonçalo de Riachão do Dantas, ainda conserva integrantes atuantes. Ela foi objeto de estudo da antropóloga Beatriz Góis Dantas (2015), uma das primeiras a registrar com detalhes como ocorria a manifestação cultural.

Segundo a pesquisadora, a dança era antecedida pela construção de um altar improvisado, com arcos de madeira, folhas verdes, toalha branca e um lençol ao fundo, que protegia o Santo e identifica se o autor da promessa vivia ou era falecido, respectivamente, com a cor branca ou preta. Seu ritual iniciava-se com um simples cortejo, onde o promesseiro (carregando o Santo) conduzia os dançadores e assistentes para a latada construída, colocando-o no altar e dando início às jornadas da Dança de São Gonçalo (intercaladas por pequenos descansos e constituída por um número de dez ou doze delas), ao som de uma rebeca, viola, pandeiro e adufe (caixa).

As toadas sangoçalenses eram tiradas por um mestre cantador, sempre com a mesma melodia e ritmo, e eram respondidas por todos, considerando apenas a ordem da quadra inicial e final de um conjunto de trinta versos, que na crença dos devotos dançantes, constavam no livro carregado pelo Santo. As coreografias da dança eram formadas a partir de duas fileiras opostas, que carregam a ordem de dois tocadores, dois cantadores e dois dançadores, dispensando o uso de indumentárias e símbolos especiais. Formando um total de doze dançadores, preferencialmente homens, para fazer menção ao número de prostitutas salvas pelo Santo Tocador e aos apóstolos de Cristo. O fim de cada jornada era marcado com fogos e o seu término celebrado com uma ceia, podendo se estender para um samba, se a promessa fosse de um devoto vivo.

Na Dança de São Gonçalo, o Santo era retirado do altar por várias vezes, pelos fiéis que buscam pagar seus votos, segurando seu cajado, carregando-o no colo, sustentando o mesmo na cabeça ou dançando uma jornada com a imagem. Muitos fieis sem posses, aproveitam uma dança patrocinada para sair da condição de espectador e também pagar seus votos, interagindo com os dançadores no pagamento da sua graça e da promessa alheia.

Ao contrário de outras realidades, os dançados de São Gonçalo de Riachão do Dantas permaneceram fieis as suas origens, restringindo-se ao rito religioso do pagamento de promessas. Mas já se apresentam explorando seu potencial de manifestação cultural, símbolo da identidade riachãoense, em momentos específicos e comemorativos da cidade, demostrando-se ativos e dispostos a continuar representando o nosso povo.

Limitado por este tempo recolhimento que atinge o mundo, impossibilitado de concluir estes escritos como gostaria, compartilho estes parágrafos assim mesmo, pela ocasião dos 150 anos de emancipação política de minha amada Riachão do Dantas, escolhendo para análise esse seu importante bem cultural, na esperança de um dia ver esse grupo completo novamente, dançando e homenageando o Beato Gonçalo do Amarante, levantando nossa cultura, com toda a devoção e fé da nossa gente.

Os outros parágrafos deste capítulo de nossa história poderão ser escritos mais adiante, somando-se ao rico cabedal cultural de nossa cidade. Nós temos muita história para contar … Viva Riachão do Dantas! Viva Palmares! Viva São Gonçalo do Amarante! O desfecho destas linhas não poderia ser outro: “São Gonçalo vos pidimo, Pidimo a Virge Maria, Que nos dê vida e saúde, No meio dessa alegria” … “São Gonçalo tá no artá, Vestidinho de azú, Roga a Deus por esse povo, Para sempre amém Jesus”.

Dançadores de São Gonçalo. 2020. Acervo de Lucas Silva.

 

FONTES:

DANTAS, Beatriz Góis. Devotos dançantes – estudos de etnografia e folclore. Aracaju-se. Criação, 2015.

FONSECA, Adalberto. História de Lagarto. Aracaju: Secretaria de Cultura e Turismo, 2002.

FONTES, Arivaldo Silveira. Figuras e fatos de Sergipe. Porto Alegre: CFP SENAI de Artes Gráficas Henrique d’Ávila Bertaso, 1992.

____. Riachão do Dantas: os primeiros tempos. As origens. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Aracaju, 1965-1978. Nº 27.

REIS, João Dantas Martins dos. A cidade do Riachão do Dantas, como começou. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Aracaju, 1960. Nº 25.

Saiba quem foi São Gonçalo do Amarante. Disponível em: https://www.potiguarnoticias.com.br/noticias/27647/saiba-quem-foi-sao-goncalo-do-amarante. Acessado em 07 de maio de 2020.

SANTOS, Claudefranklin Monteiro. Contradições da romanização de igreja no Brasil – A festa de São Benedito em Lagarto-SE (1771-1928). Aracaju: Edis, 2016.

SANTOS, José Renilton Nascimento. Novos aspectos do folclore no Município de Riachão do Dantas. Pará de Minas, MG: VirtualBooks Editora, 2019.

____. Riachão do Dantas: nossa terra, nossa história. Pará de Minas, MG: VirtualBooks Editora, 2014.

Souza, Marcos Antônio. Memória sobre a Capitania de Sergipe. Ano de 1808. Aracaju: Departamento de Estatística, 1944.